Criações por espécies 

Hárpia em cativeiro

A Hárpia (Harpia harpyja), também conhecida como Uiraçu, Guiraçu, Gavião-real ou Gavião-de-Penacho, é o maior falconiforme das Américas, ocorrendo desde o México até a Bolívia e Argentina. Atualmente é uma ave muito rara, especialmente na região merídio-oriental do Brasil, tendo se tornado extinta em várias localidades (inclusive grandes remanescentes florestais, como o Parque Estadual do Rio Doce, onde o último registro data da década de 1970).
O macho mede cerca de 60 cm de altura, e pesa entre 4,8 a 6 kg, ao passo que a fêmea atinge os 90 cm de altura e pesa entre 7,5 e 8,5 kg. A envergadura da asa pode chegar a 2,5 metros.
Na natureza, a hárpia pode capturar preguiças (Bradypus sp.), mutuns (Crax sp.), macacos (Ateles spp. Cebus spp.), filhotes de veado, arara, seriema, tatu, cobra, cutia e outros animais. Despedaça suas presas, inclusive aqueles de couro e musculatura rígidas. Estando no topo da cadeia alimentar, ela não tem inimigo à altura na natureza. Na natureza constrói seu ninho em árvores altas. O ninho é feito com pilha de galhos, constantemente renovados. A fêmea põe, geralmente, um ovo (raramente dois) entre setembro e novembro, podendo ficar duas ou mais temporadas sem postura.
Quando a postura é de dois ovos, é comum somente um filhote sobreviver O filhote deixa o ninho com 5 a 1 meses de vida, só atingindo a maturidade sexual e a plumagem de adulto aos 5 anos.

Reprodução em cativeiro

O Sr. Roberto A. Azeredo, da CRAX Sociedade de Pesquisa do Manejo e Reprodução da Fauna Silvestre, (próximo a Belo Horizonte), conseguiu, em 1999, a primeira reprodução bem sucedida da hárpia em cativeiro em território sul americano. Antes disto, somente em zoológicos dos EUA e Alemanha esta espécie havia se reproduzido. Outro ponto importante é que a reprodução da hárpia na CRAX consistiu na incubação e alimentação dos filhotes pelos próprios pais, diferentemente do que havia ocorrido com tentativas bem sucedidas em outros países, onde os ovos foram incubados artificialmente e os filhotes alimentados à mão. O casal de hárpias foi alojado em um viveiro de aproximadamente 20 metros de comprimento, dividido em dois compartimentos principais, de cerca de 10 metros cada um, com uma janela divisória. A janela, quando aberta, permite o livre uso de todo o viveiro pelas aves. O ninho, de cerca de 1,5 m², fica em um dos extremos do viveiro, e consiste, simplesmente, de uma superfície elevada cercada de toras de madeira.
A fêmea cuidou de levar ao ninho galhos de árvores que foram colocados, constantemente, no viveiro. Ambos os pais se revezaram na tarefa de incubação dos ovos. O mais notável é que ao contrário de outras instituições (particularmente, jardins zoológicos) que conseguem criar as aves esporadicamente, o Sr. Azeredo conseguiu fazer com que o casal criasse por dois anos consecutivos. Um filhote nasceu em maio de 1999 (foto acima) e outro em abril de 2000. O primeiro filhote foi separado dos pais com cerca de seis meses de idade e o segundo filhote ainda está no ninho (veja capa desta edição). Paralelamente, existe um segundo casal que já botou um ovo infértil esse ano. A expectativa é que, no ano que vem, haja três casais em reprodução.
O Sr. Azeredo considera a alimentação como um dos fatores fundamentais para o sucesso na reprodução da hárpia em cativeiro. Segundo ele, a maior parte dos pesquisadores de outras instituições fracassa ao alimentar diariamente as aves, em horários rotineiros e com um cardápio pouco variado. Azeredo afirma que esta super alimentação pode ser prejudicial às aves por engordá-las e deixá-las pouco ativas. O ideal, afirma o coordenador da CRAX, é que a ave seja alimentada de forma imprevisível e mais similar às condições que ela encontra na natureza, ou seja, sempre com intervalo de alguns dias. Paralelamente, o alimento fornecido nunca é só carne mas, sim, carcaças inteiras com penas (ou pêlos), ossos e vísceras.
Outro fator fundamental para o sucesso desse empreendimento é o constante suprimento de galhos com folhas para as aves fazerem e reformarem seu ninho. Segundo o criador, é oferecido material de construção para o ninho durante todo o ano e especialmente quando as aves estão criando.
O Sr. Roberto, um pesquisador muito meticuloso e observador, tem dezenas de páginas com anotações resultantes de centenas de horas de observação das hárpias durante as diversas fases do ano. Em breve ele deverá publicar um trabalho que contemple essas observações, objetivando auxiliar outros criadores a terem sucesso. Assim, espera-se que a população em cativeiro de uma das aves de rapina mais ameaçadas de extinção no mundo possa, finalmente, aumentar, possibilitando que se iniciem estudos visando sua reintrodução na natureza.

Fontes de consulta:
  • Matéria - André Nemésio, Paulo Augusto R. Machado e Marco Antônio de Andrade

  • Revista AVES - Revista Sul Americana de ornitofilia - ANO I Nº 02 - Setembro de 2000

  • Fotos: Paulo Werner - ZOO Asssessoria®

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